A opinião de André Carneiro sobre o património arqueológico português

André Carneiro Igreja de São Gião

OPINIÃO

7 de Janeiro de 2019


ANDRÉ CARNEIRO

“O passado é um universo esquecido e posto à margem do presente: museus sub-financiados, igrejas fechadas, sítios abandonados.”

 

Em Portugal todos conhecemos alguém assim, porque o tipo social faz parte do nosso imaginário: uma senhora de certa idade que tem por hábito guardar a sua roupa com apreciáveis quantidades de naftalina, para garantir a sua preservação. Também todos sabemos qual o resultado: a roupa fica a salvo dos infestantes, mas com um odor tal que a sua utilização fica comprometida, guardada no fundo do armário mas nunca mais vestida.

A metáfora serve para ilustrar o modo como tem sido gerido o património arqueológico português. O passado é um universo esquecido e posto à margem do presente: museus sub-financiados, igrejas fechadas, sítios abandonados.

No momento em que o Príncipe Encantado do Turismo anima a economia nacional, é necessário avaliar de que modo a Arqueologia constitui um atractivo eficaz para os visitantes que a procuram. Porque a procura existe: o património é o segundo factor de atractividade considerado quando se planeia uma deslocação com fins turísticos.

É portanto necessário olhar com atenção para esta realidade. Definir quais os sítios geridos com programas de actividades e onde decorrem iniciativas que criem dinâmicas de uma forma inclusiva, pedagógica e direccionada para o público. Mas fazê-lo a sério, porque organizar uma caminhada com um almoço no final é considerado “dinamizar sítios arqueológicos”. A Arqueologia portuguesa, orfã de um crónico subfinanciamento, também vive presa às teias de aranha originadas por uma forma reactiva de entender o presente.

Note-se como, nas estratégias de desenvolvimento territorial assentes na promoção turística, a Arqueologia está ausente. Os planos nacionais e regionais em pouco ou nada definem medidas de promoção do seu património. Poucos são os municípios que basearam a estratégia de reconhecimento territorial a partir de algum elemento da sua História ou da sua Arqueologia. As diversas regiões de Turismo não incluem nenhum elemento patrimonial como referente, nem existem linhas de financiamento para a Arqueologia. Em outros países, os elementos do passado são chaves de auto-identificação comuns e referentes na divulgação externa, chegando ao exemplo máximo da recente promoção turística da República da Macedónia, que nos trailers de divulgação nacional assentava 70 ou 80% dos conteúdos mostrando os sítios arqueológicos herdados do tempo de Alexandre, o Grande (é certo que de forma politicamente pouco inocente, mas altamente eficaz).

Para o nosso país, o desafio é ainda mais importante: como sabemos, há um imenso interior esvaziado de gentes, mas onde os sítios arqueológicos poderiam permitir a alavancagem económica de áreas em recessão demográfica. Vários exemplos na vizinha Espanha demonstram como se podem revitalizar regiões com base em sítios e museus, conectando públicos diferentes e promovendo a educação patrimonial. Em Portugal, contudo, a estratégia tem sido outra: incontáveis extensões de hectares são reviradas pela maquinaria acabada de plantar mais um olival intensivo, sem que se saibam os sítios que acabaram de ser esventrados enquanto alguém fechou os olhos, e ao lado temos monumentos nacionais ao abandono ou cobertos por chapas de zinco, como a Anta Grande do Zambujeiro ou o templo de S. Gião da Nazaré. Enquanto predomina uma visão restritiva do património, permanece o cheiro a naftalina.

Igreja de S. Gião da Nazaré - Dezembro de 2018
Igreja de S. Gião da Nazaré – Dezembro de 2018

 


André Carneiro – arqueólogo do Município de Fronteira de 1999 a 2006 e docente do Departamento de História da Universidade de Évora desde esse ano. Dirigiu projectos de estudo da paisagem rural antiga, seja no âmbito de cartas arqueológicas ou na análise de rede de povoamento no Alto Alentejo em época romana. Desde 2000 realiza escavações arqueológicas em sítios de época romana no concelho de Fronteira, estando desde 2012 a proceder ao trabalho sistemático de escavação na villa romana da Horta da Torre.