Geração Y: debalde para muitos se terá revelado a vontade por uma vida na Arqueologia – A opinião de Iva Botelho

OPINIÃO

19 de Março de 2019


IVA BOTELHO


” No que respeita aos bens arqueológicos, está em causa a destruição irreversível e permanente do “arquivo da terra”, cerceando-o à herança das gerações futuras, cognitivamente mais bem apetrechadas (como só se pode supor).

Ceci tuera cela!” O vaticínio, saído da pena de Victor Hugo em 1832, é do prêtre Claude Frollo que, com um incunábulo na mão, olha a sua Notre Dame de Paris (logo, assim se interpreta, visando a imprensa de Guttemberg – ceci – e a arquitetura das catedrais medievais – cela – no papel da divulgação da doutrina). Mas críticos, como Françoise Choay, também o relacionam com exortação coeva de Hugo: “Guerre aux démolisseurs!”; e aqui, dirigindo-se à renovação urbana francesa em curso, este evoca as Voyages pittoresques et romantiques dans l’ancienne France, publicação ilustrada qual “conservação pelo registo artístico” que é dada como o primeiro inventário do património cultural francês (ainda e apenas monumental).

No atual contexto de licenciamento de significativo número de grandes obras, vaticínio e exortação trazem-me à lembrança dois marcos cinquentenários em direção ao presente quadro de proteção dos bens culturais postos em perigo pelos empreendimentos públicos e privados: a precisamente assim intitulada Recomendação de Paris de 1968 e a redação do primeiro regime jurídico de avaliação de impacte ambiental (AIA) do mundo, o americano National Environmental Policy Act of 1969 (NEPA).

Temos pois o NEPA pautado pelo mesmo espírito baby boomer do Maio de 68 e, pese embora a alavancagem próxima no Santa Barbara Oil Spill, não esquecido de incluir a mitigação dos impactes sobre o património cultural. Igualmente o fez a Diretiva AIA de 1985, da agora União Europeia, detalhando o património arqueológico. E temos pois a prospetiva AIA responsabilizando os promotores pela identificação dos impactes adversos dos seus empreendimentos, visando mitigação – em primeira linha, tida como preventiva, profilática, antecipatória – com vista à eliminação/redução na fonte na sua tripla dimensão – por quem, onde e quando – e internalização das externalidades negativas nos custos do projeto.

No entanto, designadamente na demolidora atividade da construção, até que ponto a AIA não vem sendo transformada em instrumento ao serviço da superação de quaisquer constrangimentos cujos impactes negativos são, afinal, admitidos a expensas da mitigação via minimização e, crescentemente, compensação? Isto é, até que ponto não vem a AIA evoluindo em antagonismo com o objetivo conexo do desenvolvimento sustentável, desiderato transgeracional, entretanto, fixado em Brundtland’1987?

No que respeita aos bens arqueológicos, está em causa a destruição irreversível e permanente do “arquivo da terra”, cerceando-o à herança das gerações futuras, cognitivamente mais bem apetrechadas (como só se pode supor). Por isso mesmo a doutrina extraída da Recomendação de Paris’1968, da Carta de Lausanne’1990 e da Convenção de La Valletta’1992 dita como opção preferencial a conservação in situ; ou seja, a mitigação preventiva no seu puro sentido: desviando a ameaça do bem. Mas, entre nós, sabemo-lo, a legislação postula a primazia do princípio oposto – a conservação pelo registo científico. Saída de trabalhos prévios de sondagem/escavação, sim, aceitemos que constitui ainda aplicação por excelência de Arqueologia Preventiva, a de Categoria C.

E, por isso, está também em causa a relevância da estratégia minimizadora por meio de acompanhamento arqueológico, maciçamente sufragada pela sociedade: por consultores ambientais, promotores, empreiteiros mandatados de promotores e arqueólogos. Talvez mesmo por estudantes. Iniciar-se-ão estes melhor no duro trabalho da Arqueologia? Assim parecerá: iniciar-se-ão estes melhor assim, e indo ao básico dos básicos na indagação arqueológica, do que na difícil prática de se entregarem à decapagem estratigráfica, ao aprumo dos perfis… à sua leitura… ao registo da estratificação no espaço… à sua transmutação em estratigrafia… de joelhos… com baldes (debalde, para muitos…). E, no entanto, como pode alguém encontrar o pretendido se não sabe ainda o que deve procurar?

Considerados os conflitos de interesse em presença e visados pelas mencionadas Recomendação, Carta e Convenção, necessariamente alguém ficará/andará a perder.

Temos também, porém, que, volvido entre nós um quarto de século sobre a introdução da Arqueologia Preventiva no quadro da AIA, continuamos a debater-nos com a escassez de recursos humanos. E isto apesar da formação abundante de arqueólogos e técnicos de Arqueologia nas últimas duas décadas. Mas é igualmente conhecido o abandono temporão de muitos colegas, passados poucos anos de experiência.

A verdade é que, considerando o carácter arbitrário da escavação da obra, está ela nos antípodas da metodologia científica arqueológica – a abordagem estratigráfica. O reboliço das movimentações de terras não reflete de todo os rudimentos teóricos apreendidos pelos jovens colegas; dobrão de oiro que lhes surja… sem contexto, sabemo-lo destituído de valor científico. Tudo isto fora de tempo, em plena gestão de negócio a montante, indo à raiz: dentro de um nec+otium [cum dignitate], que é como quem diz, em plena ação sem tempo para reflexão, para sedimentação da teoria, porque tempo é dinheiro… E, com tudo isto, depreciando socialmente a participação do arqueólogo na Obra; correlativamente, o seu custo, ouvindo-se falar no presente de valores escandalosamente vergonhosos. Não será assim difícil indiciar a causa para que, para muitos, debalde se revele também a vontade por uma vida profissional em Arqueologia.

Tal como no resto da sociedade, com certeza, ocorrem casos bem, muito bem-sucedidos científica e laboralmente falando. Mas serão minoritários.

O artigo é de opinião, como só pode ser dada a escassez de números que caracterizem socioprofissional os arqueólogos. Mas, chegados ao presente, é possível que em causa esteja já a melhor preparação futura para a indagação arqueológica (repita-se, como só pode supor-se em qualquer área científica, e a isso se confina a Arqueologia). Com a retirada acelerada dos baby boomers e ante o fosso geracional na Gestão da Arqueologia entre os atuais decisores no Gabinete (quase os mais velhos da Geração X) e os executores no Terreno (já quase da Geração Z), muito terá que ser feito para que “ceci [a mitigação conforme aplicada] ne tue pas cela [a Arqueologia]”.

Manifestação contra os efeitos do Santa Barbara Oil Spill, Janeiro/Fevereiro de 1969.

Iva Botelho – É no contexto da Arqueologia Preventiva que vem desenvolvendo a sua atividade profissional e foi aí, muito concretamente executando acompanhamento arqueológico da obra, que realmente percebeu o fenómeno da estratificação na dualidade deposição/ablação. E considera determinante para o facto a sua primeira experiência nesse trabalho apenas em 1998, já quase com trinta anos e dois depois de ter concluído o Mestrado em Arqueologia.


Foto de capa:
Vhils (2013) – S. João da Madeira, Oliva Creative Factory.
Créditos: Carlos Santos Fotografia