E se fossem os seus ossos? Gostaria de os ver produzidos em 3d, e visualizados online? A opinião dos portugueses.

OPINIÃO

1 de Abril de 2019


VANESSA CAMPANACHO & FRANCISCA ALVES CARDOSO

“Já parou para pensar de quem são os ossos utilizados para criar réplicas 3D, que são depois utilizadas no ensino e investigação?
Já pensou na possibilidade dos seus ossos, serem utilizados para produzir réplicas 3D?”


A tecnologia que permite a criação de réplicas digitais tridimensionais não é recente. Modelos 3D podem ser criados através de diferentes tecnologias como a fotogrametria, scanners de superfície e scanners de tomografia computorizada (TAC). Contudo, atualmente, é notório o interesse crescente por réplicas 3D de ossos humanos. Muita desta crescente produção está associada à disciplina da antropologia biológica, cujos investigadores procuram nos ossos respostas sobre as origens do passado humano, as doenças das pessoas e os comportamentos. Como muitos trabalham em rede, e estão espalhados pelo mundo, muita da produção das imagens 3D não fica num país, mas acaba por ser disponibilizada online e facilmente acessíveis pelo público geral com curiosidade sobre estes temas. E, uma vez na net, a sua existência é eterna e a sua exposição sem limites, independente do propósito original da sua criação.

Já parou para pensar de quem são os ossos utilizados para criar réplicas 3D, que são depois utilizadas no ensino e investigação? Já pensou na possibilidade dos seus ossos, serem utilizados para produzir réplicas 3D? Ou ossos dos seus familiares? Réplicas que inevitavelmente serão reproduzidas, e espalhadas na internet sem controle? Estas são algumas das questões sobre as quais gostaríamos de saber a opinião dos Portugueses. O nosso objetivo é entender o que a sociedade portuguesa pensa sobre a produção, uso e distribuição online de réplicas digitais de ossos humanos. Afinal, não se trata da reprodução de um objeto qualquer, mas do que resta de seres humanos após a morte.

Estas questões levantam potenciais problemas éticos que merecem ser debatidos, especialmente quando o estatuto destas réplicas digitais ainda se discute, como por exemplo: devem as réplicas digitais de ossos humanos ser consideradas como sendo osso também, ou apenas um subproducto/objecto do osso original? Se uma réplica 3D é equiparável ao osso, devem observar-se as mesmas considerações éticas no estudo, pesquisa e exibição dos modelos 3D?  Foi com tudo isto em mente, e na sequência de trabalho que temos desenvolvido, que sentimos a necessidade de explorar este assunto em Portugal.

O questionário é constituído por três partes, com o objetivo de recolher informação sobre a participação ativa dos Portugueses na criação e uso de réplicas 3D, a sua opinião sobre a criação, uso e visualização de réplicas 3D, e conhecer quem se disponibilizou a participar no inquérito. Nenhuma das questões é de natureza obrigatόria, permitindo flexibilidade e escolha às questões a responder. Até ao momento participaram 144 pessoas demonstrando uma reação positiva à criação, investigação e partilha online de réplicas 3D. No entanto, a maioria considera que os modelos devem, em todos os momentos, ser acompanhados de uma descrição do seu contexto, natureza e propósito, e que o seu acesso seja controlado através de registo. Foi interessante verificar que existe uma divisão de opiniões quanto ao estatuto das réplicas digitais em relação ao atual osso humano, algo que desperta curiosidade, e merecedor de contínua investigação.

De momento procuramos aumentar o número de participantes, e diversificar a nossa amostra composta sobretudo por pessoas com curso superior, para que o estudo seja mais representativo da população Portuguesa. Queremos saber se este é um tema de interesse para os Portugueses, como começa a ser em outro países, especialmente no contexto da crescente preocupação dos direitos das pessoas, e questões de ética associadas à investigação científica. 

A opinião de todos é importante, válida e merece ser ouvida, porque pode dar origem a normas de criação e utilização de réplicas 3D com base em ossos humanos. Esperamos ter despertando interesse, e entusiasmo em participar no nosso questionário através do link https://lnkd.in/gb_sXz3.


Vanessa Campanacho é investigadora no CIAS (Centro de Investigação em Antropologia e Saúde) e no CEF (Centro de Ecologia Funcional). Actualmente colaboradora com o American Museum of Natural History. Doutorada em Antropologia Biologia pela Universidade de Sheffield, tem investigado o efeito de diferente variáveis, como a ocupação e o tamanho corporal, no envelhecimento όsseo das articulações da pélvis. Presentemente investiga questões éticas na partilha online de modelos 3D de ossos humanos.

Francisca Alves Cardoso é Investigadora Auxiliar do CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia, e coordenadora do LABOH (Laboratório de Antropologia Biológica e Osteologia Humana) do CRIA. Doutorada em Antropologia Biológica, pela Universidade de Durham, tem como foco de investigação questões da biologia do osso e ética sobre a utilização do esqueleto humano no ensino e investigação.


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